quarta-feira, 8 de outubro de 2014

RESENHA DO TEXTO: TRANSFORMAÇÃO DO MACACO EM HOMEM

 Friedrich Engels (1820 – 1895) foi teórico alemão fundador do socialismo científico (comunismo) teve importante contribuição para essa corrente político-filosófico e ao método materialismo dialética (materialismo histórico dialético), juntamente com Karl Marx escreveram diversas obras entre elas a mais conhecida o Manifesto do Partido Comunista (1848), foi dele também a tarefa de sistematizar os estudos realizados por Marx para publicação do segundo e terceiros volumes de “O Capital”.
Em seu texto “Transformação do macaco em homem” Engels apresenta sua percepção da influência do trabalho na evolução de uma espécie de primata antropóide, fundamentado na teoria de Darwin - seleção natural – que apenas uma determinada espécie – intermediário – de primatas, os símios, seria os primeiros estádios do homem como conhecemos hoje.
O trabalho segundo Engels (1980, p. 7) “É a condição fundamental de toda a vida humana, e em tão elevado grau que certo sentido, se pode dizer: foi o trabalho que criou o próprio homem.”. Nesse processo o fato da locomoção sobre a posição ereta (bípede), liberando, por conseguinte a mão - que mesmo antes disso já cumpria uma função particular aos antropoides - foi o primeiro passo para o desenvolvimento do homem. Durante o longo período de tempo que a mão evoluía, para Engels ela é vista como fruto do trabalho, até sua plena evolução, sendo capaz de produzir instrumentos:
Deste modo, a mão não é apenas o órgão de trabalho, é também a produto do trabalho. Só pelo trabalho, pela sua adaptação a operações sempre novas, pela transmissão hereditária do desenvolvimento particular, assim adquirido, dos músculos, dos tendões e, em intervalos mais longos, dos próprios ossos, pela aplicação constante desse aperfeiçoamento hereditário a novas e cada vez mais com poucas operações, foi possível a mão Humana alcançar esse elevado grau de perfeição que lhe permitiu fazer surgir o milagre dos quadros de Rafael, das estátuas de Thorwaldsen, da música de Paganini. (ENGELS, 1980, p. 9)
O fato do trabalho ter uma característica social possibilitando a formação ainda maiores de grupamentos sociais que o trabalho mútuo resulta, o suprimento das necessidades do grupo gerou novas, a de comunicação, passando assim o desenvolvimento, lentamente, de um órgão que possibilitasse a emissão de sons, a laringe: “(...) e os órgãos da boca foram, pouco a pouco, aprendendo a pronunciar sons articulados” Engels (1980, p. 11). A linguagem articulada, assim como a mão, é fruto do trabalho realizado pelo homem, ao organizarem um conjunto de símbolos e representações necessários na vida em grupo. Os estímulos: o trabalho, a linguagem pouco a pouco foi desenvolvendo o cérebro e, por conseguinte, os órgãos dos sentidos como a visão e a audição. O cérebro passa a acelerar o desenvolvimento através da capacidade de abstração e raciocínio recebidos pelos sentidos que influenciaram o trabalho e a linguagem em seu continuo aperfeiçoamento. Nesse ponto, Engels considera que o homem se diferencia totalmente do macaco e surge um novo elemento nesse progresso evolutivo e acabado de homem, a sociedade.
Outro ponto importante apresentado por Engels é o fato de a mudança alimentar dessa espécie de macaco até se tornar em homem. Não só o fato da introdução de novos elementos à alimentação – alterando a estrutura física -, inclui também, o fato de passarem a permanecer em grupos fixos, gerando necessidade como a caça e a pesca além da criação de animais para suprir essa nova dieta alimentar, a carnívora. Para Engels o trabalho na história do homem começa desse ponto:
O trabalho começa com a fabricação de ferramentas. (...) São instrumentos de caça e de pesca, servindo, os primeiros, também de armas. Mas a caça e a pesca pressupõem a passagem da alimentação exclusivamente vegetariana ao consumo simultâneo da carne: um novo passo no sentido da humanização. (ENGELS, p. 15)
As novas necessidades surgidas pela ocupação de áreas cada vez mais vastas pela superfície adaptando-se ao relevo, clima e intempéries é uma característica próprio do homem e a cada necessidade se desenvolvia novos tipos de trabalho e a especialização da mão, dos sentidos e do cérebro como já foi dito.  Se no primeiro momento o trabalho desenvolvia a habitação, o vestuário etc. “O próprio trabalho se ia tornando, de geração para geração, mais perfeito e mais variado” Engels (1980, p. 17). Mas à medida que o processo dialético entre homem-trabalho-natureza se aprofundava surgia então novas atividades:
À caça e à criação de gado, junta-se a agricultura, e a esta a fiação, a tecelagem, os trabalhos com metais, a navegação, a olaria. Ao lado do comércio e da indústria surgiram, finalmente, a arte e a ciência; as tribos transformaram-se em nações e em. Estados; a política e o direito desenvolveram-se, e, a um mesmo tempo, o reflexo fantástico das coisas humanas: a religião. (ENGELS, p. 17, grifo nosso)
 Engels reafirma que o trabalho produziu o homem à medida que o homem trabalhava, os outros animais não saíram da dependência do que a natureza lhe oferece. Ao homem tomar consciência das suas necessidades e através do desenvolvimento do cérebro foi cada vez mais se afastando da dependência da natureza e fazendo com que ela lhe desse mais do que ela poderia, através do trabalho ao modificá-la.
 A importante contribuição feita por Engels no texto está no fato dos apontamentos do que possibilitou a passagem do macaco ao homem, onde a principal característica é o processo dialético proposto por ele entre o homem que modifica a natureza através do trabalho e que é também constructo desse trabalho realizado, nos diferenciando dos outros animais no trato com a natureza, fazendo com que ela passe a fornecer o que ele necessite através de sua modificação.
O texto de Engels nos possibilita a uma visão acerca da evolução de uma espécie de macacos – símios - que além de suas caracterizas físicas próximas ao homem também se caracteriza pela forma de socialização entre seus membros, uma imagem primitiva do homem atual, desenvolvido ao longo da história e do processo dialético entre o homem, natureza e outras espécies sob a perspectiva da categoria trabalho e as formas de interação no processo evolutivo. 

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

RESENHA DO TEXTO: “Desobediência epistêmica: a opção descolonial e o significado de identidade em política”

Walter D. Mignolo é argentino de origem camponesa, professor de literatura e Antropologia e diretor do Centro de Estudos Globais e Humanidades da Universidade de Duke nos Estados Unidos.  Como pesquisador é reconhecido na academia latino-americana como um dos principais teóricos da corrente de pensamento pós-colonial. Junto com os pesquisadores Aníbal Quijano e Enrique Dussel, vem sendo reconhecido na academia por seu debate sobre modernidade/colonialidade. Dentre suas principais publicações estão: O lado mais obscuro do Renascimento, 2003; Desobediência Epistémica 2010[1]; Histórias Locais / Projetos Global: Colonialidade, Saberes Subalternos, e Pensamento de Fronteira, 2012; Aprender a desaprender: Reflexões descoloniais de Eurásia e Américas, 2012; A ideia de América Latina, 2012.
 Mignolo ao iniciar o texto “Desobediência epistêmica: a opção descolonial e o significado de identidade em política” reforça a necessidade de uma desobediência teórica como o principal caminho para os pensadores pós-colonial/descolonial, essa defesa é destacada no texto de Mignolo com um trecho do artigo de Quijano: “Colonialidad y Modernidad/Racionalidad” (1990, 1992) “Lejos de esto, es necesario desprenderse de las vinculaciones de la racionalidad-modernidad con la colonialidad, en primer término, y en definitiva con todo poder no constituido en la decision libre de gentes libres”. Tendo a construção epistêmica dos conceitos e categorias próprias do pensamento descolonial, da mesma forma sem abandonar as contribuições das críticas feitas ao pensamento colonial hegemônico produzido por pensadores europeus, segundo Mignolo (2010) “não será tomada como ‘deslegitimar as ideias críticas europeias ou as ideias pós-coloniais fundamentadas em Lacan, Foucault e Derrida’”.
 Segundo o autor a desobediência epistêmica não se trata de “politica de identidade” mas sim de “identidade em política”, para Mignolo é essencial diferenciar ambas as posições. Enquanto a politica de identidade reforça o pensamento colonial com sua determinação e divisão entre etnias, gênero, sexualidade etc., que é fruto dos conceitos construídos por correntes de pensamento que reforçam a dominação colonial nos colonizados. É, justamente na identidade em política que se assegura a opção descolonial, criando teorias políticas que confronte com qualquer outra forma de pensar que não seja o construído com bases conceituais/categoriais e o fazer descolonial dos próprios colonizados e nesse sentido a língua também cumpre esse papel descolonizador no arcabouço de determinação que são impostas pelo discurso imperial seja na economia, religião, etc.

Pretendo substituir a geo - e a política de Estado de conhecimento de seu fundamento na história imperial do Ocidente dos últimos cinco séculos, pela geo-política e a política de Estado de pessoas, línguas, religiões, conceitos políticos e econômicos, subjetividades, etc., que foram racializadas (ou seja, sua óbvia humanidade foi negada). Dessa maneira, por “Ocidente” eu não quero me referir à geografia por si só, mas à geopolítica do conhecimento. (MIGNOLO, 2010, p. 290)

Para Mignolo mesmo os críticos da racionalidade ocidental, como os citados por ele: Las Casas, Marx, Freud, Niezche etc., ambos estavam limitados à regra do jogo: “[...] mas crítica dentro das regras dos jogos impostos por razões imperiais nos seus fundamentos categoriais gregos e latinos.” (p. 290), é a partir dessa oposição as regras impostas que surge o pensamento descolonial, negando assim, o reconhecimento da razão ocidental de superior/inferior/raça etc., construídos para justificar a dominação colonial e a dominação imperial sobre outros povos, em sua particularidade, fora da Europa.
 Esse discurso de “superioridade racional” vem em segundo momento com o conceito de modernidade europeia, mascarando mais uma vez sua intenção de nova colonização. Para o autor o pós 2ª guerra mundial marca esse novo movimento, como uma tentativa de perpetuação da logica colonial, uma nova segregação entre “mundos” segundo seu nível de desenvolvimento que tinha o europeu como padrão, assim como ocorria nas ciências modernas. Mignolo destaca que essa novo discurso também servia para referenciar as importâncias das vidas humanas ao exemplificar que as perdas nas guerras no continente europeu tinha um prejuízo maior – segundo a concepção eurocêntrica – seus teóricos logo se levantaram para criticar o “barbarismo” ocorrido nessas guerras, enquanto as vidas dos nativos e escravizados mortos durante as resistências ao processo de colonização não eram dada tanta atenção por esses teóricos.
 A modernidade apesar de se “travestir” com o discurso de desenvolvimento mútuo mostra sua face de velho movimento colonial ao não mudar o modo de ver o outro – antes pela racialização, agora pelo víeis do desenvolvimento econômico ao classificar segundo o “grau de desenvolvimento” pregado por eles: primeiro e terceiro mundos. A opção descolonial se confronta diretamente com os projetos econômicos colonial/imperial, ora encabeçados por países europeus, ora fora dele, mas mantendo o projeto de globalização neoliberal que para Mignolo (2010) caminha para “desfetichização do poder político e em uma organização econômica que visa à reprodução da vida ao invés da reprodução da morte e visa à reciprocidade e à distribuição justa da riqueza entre muitos, e não à acumulação de riqueza entre poucos." Através de governos, organizações econômicas distintas, movimentos sociais etc., surgidos dessa identidade em política levam sua defesa de escolhas não-capitalista e do desenvolvimento dessas nações, visto pelo pensamento imperial que ainda procura se impor.
 Os apontamentos sobre identidade em política e desobediência epistêmica tratada por Mignolo ultrapassa uma mera definição do pensamento descolonial, uma busca dessa definição estaria limitada ao pensamento hegemônico de normas disciplinares do conhecimento ocidental, que tanto o autor e os pensadores descoloniais procuram se afastar. O reconhecimento do pensamento descolonial é mais do que o “ser” e o “estar”, uma pessoa pode assumir uma identidade em política e uma desobediência epistêmica descolonial sendo um branco europeu ou estando na Europa, na Ásia, África etc., da mesma forma que um nativo das Américas, um indígena, um mestiço etc. pode assumir o pensamento colonial. Essa consciência está justamente no reconhecimento nas diversidades de organizações, categorias e relações de poder.
 Para Mignolo há vários exemplos de que o pensamento descolonial vem construindo uma identidade em política ao conseguir espaços de discursos fora das regras do jogo capitalista, na seara econômica; epistemológica, na educação; e na política ao colocar no poder figuras que façam um discurso que apontem uma alternativa plural dentro do pensamento descolonial existente já nos processos de colonização. Essa desobediência interna é mais visível na economia com a manutenção de formas comunais de organização social, sistema comunitários que visam um modo de produção qualitativa em detrimento à proposta quantitativas da forma imperial que tentam “padronizar” em esfera global um único sistema possível.
 O principal objetivo do texto de Mignolo – como uma desobediência epistêmica – é negar qualquer tentativa de padronização das relações sociais e econômicas e subjetivas dos povos, sempre respeitando e garantindo sua independência social, epistemológica e de poder.  E, é nessa critica que questiona qualquer tentativa de adequar esses povos a modelos socioeconômicos defendidos por teorias como: o neoliberalismo que reforça o poder hegemônico do Capitalismo ou as do socialismo/comunismo que apesar de sua oposição frente ao capitalismo, Mignolo considera na essência os mesmos objetivos – padronização - às formas de organização social pelo planeta, ambas combatidas pelo corrente de pensamento descolonial do qual faz parte ele e outros pensadores contemporâneos.




[1] Esta monografia, publicado originalmente em Inglês como um longo artigo, foi então traduzido para o espanhol (versão atual). Ele também foi traduzido para o alemão, francês e sueco.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O homem quem é ele? Um percurso “cronológico” da antropologia

Na tentativa de responder a pergunta: “o homem quem é ele?” muitos filósofos, desde os gregos pré-socráticos buscaram uma categoria que pudesse responder essa questão. Platão apresenta o homem como essencialmente alma e sua principal questão é: sendo o homem essencialmente alma: alma espiritual, incorruptível e imortal como se libertar do corpo? Tanto para Aristóteles quanto para Plotino a discussão de corpo e alma é norteada pela importância ou autonomia, de um sobre o outro. Para os gregos as suas análises partiam de uma perspectiva cosmocêntrica, ou seja, qual sua origem e relação com os astros e fenômenos da natureza.
Vale ressaltar que mesmo entre os pensadores gregos, a busca do conhecimento sobre o homem, sob observações biológicas, físicas e astronômicas para alcançar a respostas sobre o Que é o homem? Na perspectiva cosmocêntrica, havia também outros que apontavam o meio – social – como um campo privilegiado para se conhecer, observando o próprio homem, segundo Cassirer (1972):
Em suas primeiras fases, a filosofia grega parece exclusivamente interessada pelo universo físico. A cosmologia predomina claramente sobre todos os outros ramos da investigação filosófica. Não obstante, o que caracteriza a profundidade e a amplitude do espírito grego é o fato de quase todo pensador grego representar, ao mesmo tempo, um novo tipo geral de pensamento. Além da filosofia física da Escola de Mileto, os pitagóricos descobriram uma filosofia, matemática, enquanto os pensadores ele áticos são os primeiros a conceber o ideal de uma filosofia lógica. Heráclito encontra-se nas fronteiras entre o pensamento cosmológico e o antropológico. Embora ainda fale como filósofo natural e pertença aos “antigos fisiologistas”, está convencido de que é impossível penetrar o segredo da natureza sem haver estudado o segredo do homem. Precisamos satisfazer a exigência da introspecção se quisermos aprender a realidade e compreender-lhe o significado. Por isso foi possível a Heráclito caracterizar toda sua filosofia em duas palavras “Procurei por mim mesmo”.  (CASSIRER, 1972, p. 19, grifo nosso).

Cassirer encontra em Sócrates uma nova postura na investigação, sem abandonar o conhecimento acumulado pelos seus antecessores, aponta que o conhecimento acerca do homem está além do conhecimento das coisas físicas e das substâncias, é do processo dialético do exercício da razão, do confronto entre as perguntas e respostas que se faz a si mesmo que se pode trilhar o caminho de conhecer o que é o homem, esse caminho está em meio a outros homens. Cassirer cita um trecho do dialogo de Sócrates e seu discípulo Fedro “[...] que sou um amante do conhecimento e os homens que habitam na cidade são meus mestres[...]” para demarcar um viés estritamente antropológico na busca de conhecer o que é o homem.
Para os filósofos medievais, se destacando entre eles Santo Agostinho e Santo Tomás, a perspectiva antropológica passa por uma visão teocêntrica, ou seja, se pode conhecer o homem a partir de sua origem e sua relação com Deus. Sua origem e seu “destino” dependem de sua proximidade com Deus e essa proximidade se baseia na busca pela salvação da alma, pois apenas uma alma pura tem a possibilidade de alcançá-lo. Nessa perspectiva o abandono da visão cosmocêntrica passa a uma visão teocêntrica para justificar a existência humana e sua “razão” de existir. A perspectiva teocêntrica, a dualidade entre corpo e a alma dificultava o conhecimento do homem e, por conseguinte, seu afastamento de Deus. No corpo residia toda possibilidade do pecado das sensações humanas e a alma necessitava manter-se pura para alcançar seu fim último, a salvação.
Na tradição cristã o percurso de entender essa dualidade entre corpo e alma tiveram duas perspectivas entre seus principais filósofos apesar de apresentar características em comum – alma e corpo – ambos enfocam a alma como o caminho comum para alcançar a essência do homem, segundo Mondin (1926):

Nas linhas fundamentais, de qualquer maneira, a antropologia de Agostinho se inspira em Platão: a mesma dicotomia entre a alma e corpo, a redução do homem essencialmente à alma, a completa autonomia do conhecimento intelectivo com respeito a qualquer contribuição do corpo. (MONDIN, 1926,  p. 11, grifo nosso).

Santo Tomás, elabora uma nova antropologia filosófica, que tem como pontos característicos os seguintes: o homem é composto essencialmente de alma e corpo; a alma não subjaz ao corpo[...] (MONDIN, 1926,  p. 11 e 12, grifo nosso).

É na modernidade onde as duas visões anteriores - cosmocêntrica, dos gregos; e teocêntrica dos autores cristãos - que perdem sua imposição perante as pesquisas críticas, tendo no homem o ponto de partida. Nessa perspectiva antropocêntrica é visto de várias formas, mas sob a inspiração na filosofia de Platão (uma ideia de bem e fim último), de cunho metafísico tendo como principais representantes Descartes, Spinoza, Pascal etc. Com Emmanuel Kant - autor da Critica da Razão Pura - essa antropologia metafísica tem um duro golpe, pois em Kant a alma humana não pode absorver um saber absoluto, para Kant o homem só pode conhecer aquilo do qual ele tem contato. Foi a partir dessa crítica de Kant à metafísica que surge uma nova investigação antropológica na modernidade, tomando novas perspectivas, uma investigação do homem em relação à ética, indivíduo, ser social, instintivo etc., grande parte de suas condições particulares.
Mas a antropologia não se contenta com o conhecimento do homem em suas particularidades, ela busca o conhecimento acerca do homem por completo e universal. Dessa forma poderíamos dizer que a antropologia contemporânea limita-se em responder a pergunta: “O homem quem ele é” dando sua resposta a partir de suas especificidades de abordagem, mas limitado em seu conhecimento do homem total.
Assim, cada corrente da antropologia filosófica moderna tenta apresentar em suas teses um homem de acordo com sua perspectiva Mondin (1926): relaciona algumas dessas que ele chama de “série de novas imagens do homem” que seria “homem econômico, Marx; homem instintivo, Freud; homem angustiado, Kierkegaard; homem utópico, Bloch; homem existente, Heidegger; etc.” Se para o filósofo Karl Marx o homem poderia ser “conhecido” a partir do econômico, ou seja, a partir dos modos de produção que se apresentaram ao longo da história da humanidade no processo dialético homem-trabalho-natureza. Para uma perspectiva ainda mais contemporânea com a apresentada por José Ortega y Gasset (1883-1955) o homem poderia ser desvendado através da técnica, o homem técnico, que tem por finalidade completar seu “programa de vida”[1].

Podemos observar que, se na visão cosmocêntrica e teocêntrica a dualidade estava entre a alma e corpo para se conhecer o homem, se alternando entre as teorias mais aceita para cada época, na modernidade as discussões antropológicas torna-se ainda mais complexas diante das inúmeras perspectivas que se caracterizam sobre os prismas a ser observado. Temos que reconhecer que diante das inúmeras perspectivas hoje, a certeza que temos é que a tarefa de conhecer o que é o homem se torna mais difícil, tornando esse homem um “enigma” cada vez mais longe de ser desvendado, mas por outro lado, mais instigante o seu estudo com o objetivo de identificá-lo e compreendê-lo. Nesse sentido, a filosofia antropológica cumpre uma tarefa essencial à humanidade.

[1] GASSET Y, Ortega. Meditação sobre a técnica. Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 1991.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

RESENHA DO TEXTO: “Os trabalhadores se revoltam: O grande massacre de gatos na Rua Saint-Séverin”

Robert Darnton é um historiador estadunidense seguidor da tendência de análise da História conhecida como História das Mentalidades, surgida na Escola dos Annales, esse movimento propôs uma historiografia de uma “História Cultural”, defendia que o historiador deve além de mostrar o que pensavam os indivíduos, precisava, além disso, desvendar como pensavam os indivíduos dessa sociedade, debruçando-se nos estudos dos hábitos e fatos do cotidiano. Darnton é especialista em história da França do século XVIII, um historiador etnográfico, pesquisador de visões de mundo pouco exploradas. Através de narrativas de fatos comuns ocorridos naquela época de uma França do século XVIII que passava por um processo de transformação social para o capitalismo como apresenta em seu texto: “Os trabalhadores se revoltam: O grande massacre de gatos na Rua Saint-Séverin”. Essa obra foi traduzida por Sonia Coutinho e publicada no Brasil em 1986. O texto é a narrativa de uma autobiografia de Nicolas Contat[1], durante seu estágio em uma gráfica de Paris no século XVIII, localizada na Rua Saint-Séverin e outros dois aprendizes; Jerome - para Darnton: Jerome era uma versão algo ficcionalizada do próprio Contat - e Léveillé. A narrativa teve como pano de fundo os conflitos de classe de uma sociedade pré-industrial que tinha na categoria dos gráficos a formação de uma oligarquia de mestres comprovada com a ampliação de impressoras e a redução das oficinas. Essa modernização elevava a força das gráficas com menos números de oficiais, isso exacerbava as relações de conflitos entre artesões, aprendizes, assalariados entre si e com os patrões.

Assim, Contat fez seu aprendizado escreveu suas memórias em tempos difíceis para os tipógrafos assalariados, quando os homens da oficina da Rua Saint-Séverin estavam ameaçados de serem eliminados do nível superior do negócio e tragados pelas camadas inferiores. (Darnton, 1896, p. 109)

Para Dornton, os fatos que levaram os trabalhadores a promover o massacre dos gatos tinham muito mais do que a simples aparência dos fatos, sua análise coloca o leitor num aprofundamento das consciências de uma sociedade que trazia consigo símbolos, ritos, crenças e superstições típicas de uma sociedade feudal. Esse período de transição das relações de produção do feudalismo, que a cada dia ficava ultrapassado, para relações de trabalho assalariado identificado na narrativa de Contat que viveu aquele período e foi participante ativo no seio da categoria dos gráficos formados por aprendizes, oficiais, assalariados e mestres, demarca o contexto socioeconômico em que o fato se desenrolou.
Como narra o texto, as condições de trabalho e moradia dos trabalhadores em gráficas do século XVIII era bastante precária, desde as acomodações até alimentação “servidas” a eles. O texto destaca bem ao referir-se o tratamento dispensado a gata pertencente à mulher do patrão, la grise, tida como um amuleto - superstição comum à burguesia da época - em comparação aos seus operários “Em vez de jantar a mesa do patrão, tinham de comer os restos de seu prato na cozinha.” (DARNTON, 1986), sem contar com o barulho de uivados dos gatos que proliferavam pela gráfica e nas ruas próximas que chegavam a impedir que os pudesse dormir. A situação chegou ao ponto que seu companheiro de trabalho, Léveillé, escalasse o telhado onde os patrões dormiam e passou a simular uivados durante várias noites para fazer provarem um pouco do incômodo que os animais que eles tanto prezavam, em especial la grise, propiciava aos trabalhadores que tinha que dormir em meio a eles. Os resultados de noites a fio ouvindo uivados, os patrões deram a ordem para o extermínio dos felinos por acharem que foram enfeitiçados. Apesar da ressalva de poupar a gata de estimação, feita pela mulher do patrão, ela foi a primeira a ser alvejada pelos oficiais e assalariados, e, exposta como troféu de caça e como uma resposta ao desprezo da patroa com seus operários. Ao fim da caçada os operários promoveram um verdadeiro “carnaval” e Léveillé o principal personagem que tinha um reconhecido dom de imitações e mímicas, meios comuns para gozar da cara de quem não se gostasse.
Mais os relatos da história cultural francesa capitada por Darnton no relato feito por Contat não se limitavam ao ocorrido com os gatos e a vida difícil de aprendizes na gráfica de Jacques Vicent. A aprendizagem da profissão de tipógrafo também trazia costumes próprios da profissão, era uma etapa na vida de um jovem aprendiz que demonstravam fortes laços com o passado, tradições e segredos guardados aos quais os  aprendizes passavam a descobrir. Eram submetidos pelos superiores a provações, e ritos para alcançar o status de “Monsieur”[2], alcançado primeiro por Jerome “Tendo cumprido, na plenitude, um rito de passagem, no sentido antropológico da expressão, ele se tornou um Monsieur”  (Danton, 1986, p. 120).
Para drenar os sentimentos acumulados diante de toda a situação desumana de maus-tratos e submissão que os tipógrafos tinham que aturar dos patrões havia um período, que assim como o evento ocorrido com os gatos, esses trabalhadores podiam expressar de forma descarada o que pensavam dos patrões e seu modo de vida de aparências.  O carnaval, onde toda ordem era posta a baixo, tendo o gato os principais instrumentos simbólicos para representar essas transgressões.

O carnaval era um período de critica, para os grupos jovens, particularmente os aprendizes, que se organizavam em “abadias”, dirigidas por um pretenso abade, ou um rei, e faziam charivaris ou passeatas burlescas, com música grosseira, cujo objetivo era humilhar maridos enganados, maridos espancados pelas mulheres, mulheres casadas com homens mais jovens ou qualquer um que personificasse uma infração das normas tradicionais. Carnaval era a temporada da hilaridade, da sexualidade, e os jovens se esbaldavam - um período em que a juventude testava as fronteiras sociais, através de irrupções limitadas de desordem, antes de ser outra vez assimilada pelo universo de ordem, submissão e seriedade da quaresma. (DARNTON, 1986, p. 113)

Dornton buscou reconstruir o cenário narrado por Nicolas Contat: Anecdotes typographiques ou l’on voit la description de coutumes, moeurs et usages singuliers des compagnons imprimeurs, ed. Giles Barber (Oxford, 1980). O manuscrito original está datado de 1762. Barber fornece uma descrição completa dos antecedentes do livro e da carreira de Contat, em sua introdução. O relato do massacre de gatos ocorre nas páginas, 48-56. Através dos papéis da Société Typographique de Neuchatel (STN), que forneciam registros de contratações e eram confrontados aos relatos feitos por Contat e os arquivos da vinculados à categoria dos gráficos, um trabalho investigativo, pois o fato só fora relatado apenas por Contat, restando saber em que contexto sociocultural o relato se podia reconhecer como verdadeiro.
A abordagem do texto “Os trabalhadores se revoltam: O grande massacre de gatos na Rua Saint-Séverin” numa primeira vista dá ao leitor de uma sociedade contemporânea uma certa repulsa ao ato dos operários, pode parecer uma barbárie contra os gatos, mas Darnton e o objeto de sua história é contextualizar qual era o pensamento e os ritos dos membros da sociedade francesa da época, os episódios que remontam não apenas o massacre dos animais como um ato isolado. O episódio da admissão de Jerome ao status Monsieur, do comportamento animalesco dos trabalhadores nos períodos de folias carnavalescas. Por trás de fatos comuns se podiam reconstruir posturas sócias mais antigas que o período em que os fatos foram relatados por Contat.  Nesse contexto o massacre dos gatos não estava isolado em um ato de operários insatisfeitos apenas, mas representava uma lembrança histórica do que o gato representava nos mitos e lendas do folclore que ainda tinha força numa sociedade em transformação.




[1] Darnton pesquisou o relato de Nicolas Contat em Anecdotes typographiques ou l’on voit la description de coutumes, moeurs et usages singuliers des compagnons imprimeurs, publicado em 1980, pela editora Giles Barber (Oxford, Inglaterra). Na nota 1 (do capítulo 2), na p. 345, Darnton lembra que o manuscrito original está datado, segundo Barber, de 1762.
[2] O texto não dá o último nome de Jerome, mas enfatiza a mudança de nome e a aquisição do "Monsieur": "Só depois do fim da aprendizagem se é chamado de Monsieur; esta qualidade pertence apenas aos assalariados e não aos aprendizes" (pg. 41). No livro de salários da STN, os assalariados sempre aparecem com seu "Monsieur", mesmo quando são chamados por apelidos, como "Monsieur Bonemain".

quarta-feira, 9 de julho de 2014

EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO GEOGRÁFICO: Da autonomia à Ciência “justificadora” do Estado-nação

RESUMO

Neste artigo apresentamos de forma sucinta uma pequena descrição da evolução da geografia desde uma ciência de síntese até a geografia autônoma. Buscamos demonstrar essa evolução, para tanto, utilizamos o corte cronológico destacando as principais escolas do pensamento geográfico e seus teóricos apresentando as principais correntes dos pensamentos geográficos - isso não quer dizer que o pensamento tenha se desenvolvido de forma cronológica, acreditamos que essa forma possa ser mais didática para o desenvolvimento deste artigo.

Palavras-chave: Evolução, Escolas do Pensamento, Geografia.

INTRODUÇÃO


Os primeiros estudiosos que buscaram na observação da superfície do planeta tinham como finalidade uma ciência que fosse capaz de organizar todo o conhecimento produzido pelas outras ciências, responsável pela “particionalização” desse conhecimento, cuja essa ciência seria uma ciência que aglutinasse tudo o que é produzindo em uma ciência de síntese, ela seria a geografia. Esses conhecimentos geográficos seriam construídos a partir da observação dos fatos ocorridos sobre a superfície da terra, uma descrição minuciosa do que era real e visível sobre essa superfície, segundo MORAES (1999), “[...] a tradição kantiana coloca a Geografia como uma ciência sintética (que trabalha com dados de todas as demais ciências), descritiva (que enumera os fenômenos abarcados) e que visa abranger uma visão de conjunto do planeta.”.  Alexander Von Humboldt (1769 – 1859) foi um dos primeiros a seguir essa linha de uma geografia descritiva da superfície da Terra, focando na observação das paisagens, sua obra Cosmos tem como principal referência um literato,
Em 1870, quando a disciplina de geografia conquistou sua autonomia com a institucionalização da ciência geográfica, ela ainda se mantinha cumprindo um papel de uma ciência de síntese, construindo um arcabouço teórico a partir das relações entre homem/meio; entendendo-se ai o homem suas relações de produção, social, culturais e econômicas; e, o meio: a paisagem, a áreas, o territórios e a região como categorias de analises. O fruto das observações resultantes das relações entre os “atores” dessa ciência geográfica entre si construiu as bases epistemológicas que vinham sendo discutidas dentro da evolução do pensamento geográfico. Abrir-se-ia, então, uma o espaço necessário para o primeiro questionamento acerta do pra quê serviria a geografia e como ela poderia influenciar no desenvolvimento da humanidade, um desses geógrafos, Piotr Kropotkin (1842 – 1921), que apontava para um caminho que deveria ser seguido – posição minoritária entre os demais, em seu ensaio “O que a geografia deve ser”, publicado em 1885 numa revista cientifica, afirma o seguinte: 

A Geografia deve cumprir, também, um serviço muito mais importante. Ela deve nos ensinar, desde nossa mais tenra infância, que todos somos irmãos, independentemente da nossa nacionalidade. Nestes tempos de guerras, de ufanismos nacionais, de ódios e rivalidades entre nações, que são habilmente alimentados por pessoas que perseguem seus próprios e egoísticos interesses, pessoais ou de classe, a geografia deve ser – na medida em que a escola deve fazer alguma coisa para contrabalançar as influências hostis – um meio para anular esses ódios ou estereótipos e construir outros sentimentos mais dignos e humanos.(Piotr Kropotkin, 1885).

Kropotkin nesse ensaio faz duras críticas à forma de se estudar a geografia e a utilização do conhecimento para favorecer os estados e os governos, que já havia dentro das escolas do pensamento geográfico - as quais vamos apresentar adiante – acerca da construção e do uso desse conhecimento produzidos por geógrafos que se colocaram a serviço da classe dominante e de seus estados.
A partir daqui, se tem muitas teorias elaboradas, que ao passo que elevaria o conhecimento geográfico formando uma epistemologia da ciência, apesar de falarmos sobre as teorias hegemônicas nessa evolução, sempre houve geógrafos que questionaram essas teorias de justificação do estado, principalmente os geógrafos seguidores de Kropotkin e do teórico do anarquismo[1], Mikhail Bakunin (1814 – 1876).

O SÉCULO XIX

O mundo via a expansão do Modo de Produção Capitalista[2] com a primeira Revolução Industrial[3] impulsionados com a invenção da máquina a vapor e o acelerado desenvolvimento das técnicas. A Europa era o centro que emanava conhecimento e progresso, mas também o ponto em que os conflitos entre as nações que precisavam de recursos naturais abundantes para efetivar esse progresso eram claros.

O desenvolvimento das ciências em geral e da geografia em particular acelerou-se nos séculos XVIII e XIX, em consequência da expansão do capitalismo, O capitalismo comercial provocaria, a partir do século XV, grande expansão das navegações e, como consequência, o desenvolvimento dos novos continentes e ilhas, fazendo com que se intensificasse o comercio entre os povos que viviam em condições naturais, e em organizações sociais as mais diversas. A Europa, que possuía o núcleo de civilização mais dinâmica e tinha maior controle da tecnologia, estendeu a sua influencia econômica e política por toda a superfície da Terra [...] (ANDRADE, 2006, p. 71)

O século XIX foi marcado pelo expansionismo territorial, principalmente de países do continente europeu sobre os demais continentes e pelas revoluções econômicas, sociais e ideológicas dentro desse turbilhão de acontecimentos a geografia teve um papel importante na história, engendrada no processo de formação de postulados teóricos para o estado e epistemológico para a ciência em si. Foi durante esse período que governos e nações que buscavam suas expansões territoriais ou manutenção dos territórios já conquistados que propiciou aos geógrafos as condições materiais necessários para montar esse arcabouço teórico patrocinado, em grande parte, por esses interesses, que a primeira vista, não era o interesse de ter um conhecimento ou a construção de uma ciência forte, mas ter uma ciência que justificasse o uso da força, da pilhagem e da “supremacia” de um povo sobre os outros, um objetivo pouco nobre, mas esses governos encontraram geógrafos dispostos a esse fim que tem seus nomes e suas teorias marcados na história da humanidade. Voltamos ressaltar que apesar disso, geógrafos críticos se mantinham na dura batalha de desmascarar os reais interesses por trás do uso do conhecimento geográfico e seus principais ícones.

ESCOLAS DO PENSAMENTO GEOGRAFICO

Como vimos, a geografia vinha construindo seu campo de conhecimento, apesar de não ter um objeto definido, para que a geografia fosse reconhecida como uma ciência plena. Mesmo assim ela vinha sendo construída e vista como fundamental. Precisamos esmiuçar mais sobre como ela serviu aos interesses do Estado-nação[4], através de suas escolas do pensamento geográfico, que surgiam ou para justificar as ações de invasão a outros povos ou como freio aos países que detinham condições militares para a colonização forçada. O objetivo era claro, caso não houvesse uma teoria que justificasse a invasão, então esses governos buscavam nas ciências essa “justificativa”. Essa é a principal razão para que essas nações criassem suas “escolas” (teorias justificadoras).
Para entender melhor essa “guerra” teórica, precisamos observar que a França, principalmente, e outros países já haviam avançado no que diz respeito à conquista de novos territórios pelo mundo a fora. Mas havia nações como a Prússia, que de forma tardia, concluiu que precisava também colonizar outros povos, já havia travados várias guerras que resultou e anexação de outros territórios e o aumento, consequentemente, de sua população, essa posição encontrou na teoria de Friedrich Ratzel (1830 - 1905) um instrumento poderoso de legitimação do recém-criado Estado alemão[5]. Ratzel desenvolveu o conceito de “Espaço Vital”, que seria o pilar teórico do Estado alemão:

[...] o progresso implicaria a necessidade de aumentar o território, logo, de conquistar novas áreas. Justificando estas colocações, Ratzel elabora o conceito de “espaço vital”; este representaria uma proporção de equilíbrio, entre a população de uma dada sociedade e os recursos disponíveis para suprir suas necessidades, definindo assim suas potencialidades de progredir e suas premências territoriais. (MORAES, 1999, p.19)

Essa escola de pensamento instituída por Ratzel foi conhecida por Escola Alemã - Determinista, afirmava que por questões climáticas determinados povos localizados em uma parte do globo terrestre – zona tropical – estariam fadados ao subdesenvolvimento econômico, social e cultural, portanto seriam inferiores e sua colonização pelos alemães se justificaria devido sua superioridade além do que, para manter o povo alemão em seu território, necessitariam conquistar esses povos subdesenvolvidos par a serem explorados – recursos naturais - e mantidos sob seu controle.
Mas a Alemanha não se contentava em apenas buscar territórios em outros continentes, até porque, o mundo já estava em grande parte colonizado pelas grandes nações com França e Inglaterra. Embasados nessa teoria do Espaço Vital a Alemanha passou disputar com a França os territórios até mesmo em seu próprio continente.
A França com sua vasta expansão territorial era a principal força que disputava os territórios com a Alemanha, foi então que o Império Francês além de fazer o embate físico encontrou uma teoria que ficou conhecida como Escola Francesa - Possibilista, corrente defendida pelos franceses Lucien Febvre (1878 – 1956) e Vidal de La Blach (1845-1918),para confrontar a Determinista da Alemanha. La Blache desenvolveu o seu conceito de “gênero de vida”:

[...]concebia o homem como hóspede antigo de vários pontos da superfície terrestre, que em cada lugar se adaptou ao meio que o envolvia,  criando, no relacionamento constante e cumulativo com a natureza, um acervo de técnicas, hábitos, usos e constumes, que lhe permitiram utilizar os recursos naturais disponíveis. A este conjunto de técnicas e costumes, construído e passado socialmente, Vidal denominou “gênero de vida”, o qual exprimiria uma relação entre a população e os recursos, uma situação de equilíbrio, construída historicamente pelas sociedades. A diversidade dos meios explicaria a diversidade dos gêneros de vida. (MORAES, 1999, p. 23)      

Tínhamos então duas nações – escolas - (Alemanha e França) em conflitos armados, dois teóricos (Ratzel e La Blache) em intensas críticas teóricas e dois conceitos (“espaço vital” e “gênero de vida”) que se opunham. A finalidade da teoria de Lá Blach e que fazer a critica de princípios da teoria ratzeliana. Primeiro que a teoria tratava abertamente de questões políticas do estado germânico, segundo MORAES (1999) “Vidal, vestindo uma capa de objetividade, condenou a vinculação entre o pensamento geográfico e a defesa de interesses políticos imediatos, brandindo o clássico argumento liberal da “necessária neutralidade do discurso científico.” a tentativa não despolitizar o debate ideológico dando uma falsa independência do conhecimento científico e dos interesses nacionais também era a leitura da própria burguesia francesa que já tinha sua hegemonia consolidada. A segunda crítica de Vidal em relação à Ratzel foi pelo fato de que sua teoria colocava o homem, como passivo em relação ao meio – visão naturalista -, defendendo que o homem também tem um papel ativo nas transformações do meio, apesar dessa defesa MORAES (1999) aponta uma afirmação feita por Vidal “diz explicitamente: ‘a Geografia é uma ciência dos lugares, não dos homens’”. A terceira e mais contundente critica foi em relação ao determinismo dos povos pela sua condição natural, antropogeografia.

MORAES apresenta a crítica da seguinte forma:

Uma terceira crítica de Vidal à Antropogeografia, derivada da anterior, atacou a concepção fatalista e mecanicista da relação entre os homens e a natureza. Assim, atingiu diretamente a ideia da determinação da História pelas condições naturais. Vidal vai propor uma postura relativista, no trato dessa questão, dizendo que tudo o que se refere ao homem “é mediado pela contingência”. Este posicionamento, aceito por seus seguidores, fez com que a Geografia francesa abandonasse qualquer intento de generalizar. Jogou-se a criança com a água do banho, isto é, na crítica ao determinismo naturalista de Ratzel, a proposta de Vidal negou a própria determinação. (MORAES, 1999, p. 24)

Entre a guerra teórica dessas duas escolas outros geógrafos como francês Elisée Reclus (1830 - 1905) - militante anarquista que teve uma intensa participação política, participou ativamente do levante popular da comuna de Paris - também desenvolvia uma criticava a ambas as teorias que estavam a serviço de seus Estados, produzindo algumas obras como: “Geografia Universal” e “A Terra e o homem”, que defendia uma posição libertária para a geografia - na tentativa de construir um pensamento geográfico unitário para a disciplina -, posição minoritária entre os geógrafos da época que tinham sua visibilidade muito relacionada aos estados e governos.
Em 1930 é apresentado o “Método Regional”, tida como uma escola influente na evolução do pensamento geográfico, teoria elaborada por Alfred Hettner (1859 – 1945), geógrafo Alemão, que desenvolveu o conceito de “diferenciação das áreas” apresentado uma questão importante ao debate geográfico ao definir: “[...] o caráter singular das diferentes parcelas do espaço adviria da particular forma de inter-relação dos fenômenos aí existentes. A Geografia seria então o estudo dessas formas de inter-relação dos elementos, no espaço terrestre” (MORAES, 1999), para dar respostas às criticas feitas à Ratzel. Este conceito só seria reconhecido após Richard Hartshorne (1899 – 1992), geógrafo estadunidense, ter se dedicado ao desenvolvimento e aprimorar as ideias de Hettner, aprofundado seus estudos.
Até aqui as teorias geográficas se desenvolviam alicerçada no método científico positivista[6], tendo uma diferenciação desse positivismo dentro do método regional como destaca Morais:

A Geografia de Ratzel e a de Vidal tiveram sua raiz filosófica no positivismo de Augusto Comte, a qual foi passada acriticamente para seus seguidores. A geografia de Hettner e Hartshorne fundamentava-se no neokantismo de Rickert e Windelband. O fato de ter sido menos empirista não quer dizer que esta proposta tenha rompido com este traço marcante de toda a Geografia; apenas ela não se negou também ao uso da dedução. (MORAES, 1999, p. 31)
  
 Essas escolas marcaram o pensamento da geografia tradicional, baseada numa geografia de síntese e positivista que era construída em meio aos conflitos por territórios e políticas expansionistas de superpotências da época, nesse sentido a geografia como ciência e responsável pelo estudo geográfico e suas variantes que caiam em dualismos dentro das mais variáveis vertentes: Geografia Física e Geografia Humana, Geografia Geral e Geografia Regional. Esse dualismo dentro da geografia tradicional é explicado com um exemplo por MORAES:

Vidal de La Blache, por exemplo, formula uma proposta que resolve o primeiro e o terceiro dualismo, porém à custa do segundo; sua Geografia é unitária e sintética, entretanto abre mão da generalização, pela perspectiva regional. Hartshorne resolve esta última questão, com a ideia do estudo nomotético e idiográfico, entretanto somente através de uma Geografia tópica. E assim ocorre, em todas as propostas. Todas estas questões forneceram as razões formais para a crítica do pensamento geográfico tradicional, e, assim, foram as condutoras do início do movimento de renovação. (MORAES, 1999, p. 35)


A GEOGRAFIA NUM MOVIMENTO DE RENOVAÇÃO

O movimento de Renovação da Geografia que inicia em após a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945) põem os geógrafos em discussão acerca da Geografia como ciência, pois até o memento ainda se mantinha com os status de uma ciência de síntese. Essa insegurança quanto a sua autonomia – tratado com uma crise da geografia -, GONÇALVES descreve o que era essa crise em um ensaio intitulado “A Geografia está em crise. Viva a Geografia!”:

Muita tinta se tem gasto para discutir o que seria uma geografia científica. Esta busca de cientificidade é, até certo ponto, um esforço de legitimação do intelectual perante a sociedade como um todo. O ritual que envolve o trabalho intelectual tem, portanto, um caráter de busca de legitimidade que dá ao exercício do pensar o real uma dinâmica específica. (GONÇALVES, 1978)

Continua reforçando que:

Todavia, a produção de conhecimento não se dá fora de um contexto histórico-social, onde uma série de linhas de forças se entrechocam na realidade; relações de forças essas das quais o trabalho intelectual tem que dar conta. Através dessas observações, queremos deixar claro que a ambicionada cientificidade, que é o modo específico de legitimação do trabalho intelectual, é relativa na própria medida em que o real é um movimento que se faz através de contradições que, por sua vez, atravessam a própria prática do intelectual. (GONÇALVES, 1978)

Nesse momento da historia da humanidade, com uma crise do capitalismo – ou adaptação do mesmo às novas realidades - em nível global fez cair em descrédito à manutenção de uma geografia atrelada aos interesses aos quais ela serviu muito bem os governos “[...]se discutem os impasses gerados pelo próprio projeto da geografia enquanto um segmento do saber científico capaz de dar conta, compreender e explicar, enfim, os problemas concretos[...]”(GONÇALVES, 1978). A geografia entre então em uma nova ebulição epistemológica que a levaria a conquistar seu objeto de estudo, fazendo com que seja reconhecida e diluísse as inseguranças dentro do meio científico.
A continuidade dessa evolução do pensamento passaria pelo surgimento de novas escolas que trariam debates não mais de justificativa de dominação, mas uma geografia que discutisse novos paradigmas como os ecológicos e de uma sociedade consolidada com o modo de produção capitalista e com os países com suas expansões territoriais estagnadas, essa nova expansão deveria estar baseada na economia e no poderio econômico-financeiro, para esse fim, contavam com a geografia para continuar sua construção epistemológica, agora com um viés mais critico e tendo o espaço como seu objeto de análise.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 Nesse esforça de dar uma visão da evolução do pensamento geográfico inicial, vimos que, há grandes lacunas para melhor entender e ainda mais, descrever num artigo de uma forma mais completa, ou que pelo menos, tenha uma abrangência maior ao tentarmos situar a geografia como uma disciplina e uma ciência da quais todos tenham gosto no aprofundamento de seu desenvolvimento ao longo da historia. Nesse sentido, anexamos (ANEXO I) a este artigo um corte cronológico com os principais pontos apresentados nesse artigo que achamos interessante que esteja acompanhando para termos uma visão panorâmica do que apontamos durante o desenvolvimento do mesmo. Nesse sentido, precisamos destaca de entre os “vácuos cronológicos” e/ou espaço temporal não foi possível, mas existiu, apontar mais visões que de uma maneira ou de outra contribuíram com suas criticas ou atém mesmo com suas práticas de um ensinar ou desenvolver teorias geográficas. O tempo e a historia não parou, e não cessará também as reformulações dessa ciência que contribuí e pode contribuir ainda mais para a transformação e o conhecimento da humanidade.

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[1] Teoria libertária baseada na ausência do Estado. De um modo geral, anarquistas são contra qualquer tipo de ordem hierárquica que não seja livremente aceita, defendendo tipos de organizações horizontais e libertárias.
[2] Segundo a teoria de Karl Marx o modo de produção capitalista, corresponde uma estrutura de classes, na qual a propriedade dos meios de produção determina a posição da burguesia como classe dominante.

[3] De acordo com a teoria de Karl Marx, a Primeira Revolução Industrial (1820 – 1840), iniciada na Grã-Bretanha, integrou o conjunto das chamadas Revoluções Burguesas do século XVIII, responsáveis pela crise do Antigo Regime, na passagem do capitalismo comercial para o industrial.
[4] Um território delimitado composto por um governo e uma população de composição étnico-cultural coesa, quase homogênea, sendo esse governo produto dessa mesma composição. Isto ocorre quando as delimitações étnicas e políticas coincidem. Nestes casos, normalmente, há pouca emigração e imigração, poucos membros de minorias étnicas, e poucos membros da etnia dominante a viver além das fronteiras.

[5] A unificação da Alemanha, política e administrativamente, em um Estado-nação, realizou-se, oficialmente, no dia 18 de Janeiro de 1871, na Galeria dos Espelhos do Palácio de Versalhes, em França.
[6] O positivismo defende a ideia de que o conhecimento científico é a única forma de conhecimento verdadeiro. De acordo com os positivistas somente pode-se afirmar que uma teoria é correta se ela foi comprovada através de métodos científicos válidos.



ANEXO I



REFERÊNCIAS

ANDRADE, Manuel Correia de. Geografia: Ciência da Sociedade. Recife: Ed Universitária UFPE, 2006.

Kroptikin, Piotr. O que a geografia deve ser. Tradução José W. Vesentini. São Paulo: AGB, 1986.  Disponível em: http//w.w.w.geocritica.hpg. com.br/geocritica acessado em:  dezembro, 2013.
MORAES, Antonio Carlos Robert. GEOGRAFIA: Pequena História Crítica. São Paulo, 10ª Ed, Hucitec,1999.


GONÇALVES, Carlos Walter Porto. A Geografia está em crise. Viva a Geografia! Comunicação apresentada no 3.° Encontro Nacional de Geógrafos, julho de 1978, originalmente publicada no Boletim Paulista de Geografia 55, novembro de 1978.